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isso é uma carta de adeus - só uma rapidinha
Eu tô fugindo de escrever esse e-mail. Não é nada chocante que eu esteja, é até meio óbvio, depois de tantos anos, tantos textos, tanta coisa feita. Nada em mim consegue afastar a sensação de que eu tô vindo aqui abandonar uma parte de mim que é muito importante, mesmo que eu meio que saiba que preciso fazer isso. E talvez eu já soubesse há um tempo, mas eu sou resistente a mudanças quando elas significam deixar algo para trás. Sou apegado a coisas e pessoas, e principalmente apegado a ritos, sensações, costumes que me moldaram de alguma forma. Se tem algo que escrever as rapidinhas fez foi me moldar.
Eu já falei sobre isso muitas vezes em muitos lugares diferentes, mas minha relação com a escrita oscilou muito desde que me joguei no mercado editorial (mesmo que o independente). Antes disso também oscilou, é claro, mas de uma forma diferente, com um peso diferente. Entrar pra dança dos livros formalmente (seja lá o que isso quer dizer), mexeu comigo e continua mexendo comigo todos os dias.
É meio cômico, eu acho, quando penso que sinto o peso de expectativas e da ansiedade nas costas com força até hoje, mesmo que o meu alcance e o quanto sou lido tenha mudado drasticamente nos últimos dois anos. E mesmo que antes disso não existisse uma pressão real imposta por ninguém em específico. Ela é hoje, como sempre foi, mais uma das belas paranoias fabricadas pela minha cabeça.
Mas estou divagando, acho. O Só uma rapidinha mudou a minha vida. Me trouxe leitores, me reaproximou da escrita erótica como nunca, me fez testar muitas coisas na escrita, ritmos, jeitos de contar histórias, tipos de personagens e tudo mais que eu nunca teria espaço para testar em outros formatos. Os textos (não tão) curtos, a mudança de temática frequente, leitores que topavam qualquer parada que eu quisesse fazer e uma cabecinha infernal que não para me possibilitaram crescem muito como autor. Não sou o mesmo Koda de 2022 que começou essa newsletter e sou muito, muito grato por isso.
Nesses quase quatro anos, muita coisa mudou além da minha escrita. As redes sociais se deterioraram, eu perdi a pouca desenvoltura com marketing que tinha criado a muitas custas, a vida me atropelou muitas e muitas vezes, mudei de cidade (duas vezes), fiz muitas e muitas coisas pela primeira vez, e fui, em cada uma delas, deixando um pouco para trás e trazendo novas experiências no colo. Pouco a pouco, eu vejo, me afastando de quem eu era e me aproximando da pessoa que posso ser.
Mas... Como eu disse, apegado.
O Só uma rapidinha me trouxe os meus melhores leitores, os mais divertidos, os que mais me colocaram pra cima. Me trouxe uma auto estima com a minha escrita que eu havia perdido no meio do mar de medo. Me trouxe coragem (ainda que também tenha me trazido receios). Quando olho para trás, meus olhos ficam cheios d’água de reviver cada interação, cada sentimento, cada coisinha.
Recentemente deletei todos os tweets da minha conta do twitter (aquela rede social está me dando calafrios e preferi não ter como ter meus posts alterados por pessoas esquisitas, desconhecidas e mal intencionadas), e apesar de ter feito um backup do arquivo, os registros são menos bonitos e fáceis de achar do era com uma busca. Mesmo assim, as memórias ficam. De cada post de divulgação, cada pessoa me respondendo, cada alegria, cada comentário. Eu lembro de todos. Não individualmente, vai, porque ser um esquecedor é meio que uma das minhas características, infelizmente, mas eu lembro da sensação deles, lembro da euforia, da alegria, de começar a ver nomes se repetindo, reconhecer rostos e carinhas e, inclusive, começar a perceber os gostos de cada leitor. Em certo ponto, eu conseguia prever se algum dos leitores recorrentes iria gostar do próximo texto ou não. Era gostoso assim.
Mas esse era o lado bom, eu acho, e ao qual me apego tentando fugir dessa decisão que eu sei que preciso tomar, mas evitei nos últimos meses. O lado ruim não é muito difícil de imaginar. Muita ansiedade com os prazos (que eu mesmo me coloquei), dificuldade em manter projetos paralelos (eu ainda quero escrever muitos romances) (escrever o primeiro me deixou com sede), e, em certo ponto, era difícil ate ter novas ideias. Como eu disse, as redes sociais ruíram, e também era parte da diversão, eu acho, escrever com base nas ideias enviadas por leitores, que nem sempre chegam mais.
Não é que estou sem ideias, eu tenho ideias. Tenho planejado meus romances, estou escrevendo fanfics ocasionalmente e, vez ou outra, uma rapidinha ainda sai de mim como se eu a tivesse exorcizando, um sentimento que eu amo vivenciar. Mas em mais da metade do tempo, confesso, as palavras das rapidinhas se debatem para sair de mim como se fossem uma criança birrenta e eu um pai insistente, puxando-a pela mão dizendo sim você vai morar nessa página de word, seu moleque atrevido. Não é uma sensação muito agradável. Eu me pego evitando escrever, fugindo para outras tarefas, com medo da sensação da ansiedade e inquietação que irão me dominar, eu sei que irão. Eu não sei bem o motivo.
Meu amor, quando ler esse texto, vai repetir para mim, como já disse outras vezes, que ninguém fez o que eu fiz. Que a maioria dos escritores não precisa ter uma nova ideia completamente do zero a cada trinta dias, às vezes menos. Que não precisam mudar de contexto como mudam de roupa, que tem, ao menos, um tempo para se apegar a ideia e fermentá-la e construí-la antes de ir para a próxima coisa. Vai dizer que, se eu insistir ainda mais, vou queimar como o pavio de uma vela ardente. E, diferente de uma vela, eu não sou substituível.
Você vê, eu estou dando voltas com esse texto, fugindo de falar o que preciso falar, me explicando pra vocês, mas também para mim, eu acho. A essa altura já dá pra imaginar para onde vamos. O Só uma rapidinha chegou ao fim. Nossa, como dói falar isso. Sinto meus olhos cheios d’água de novo. Sendo sincero, não é essa despedida dramática, na verdade. Não é como se eu não fosse escrever sexo em histórias (não tão) curtas nunca mais. Eu só preciso de um tempo (muito tempo) longe da constância e obrigação. Preciso de um pouquinho de paz pra fermentar as ideias e amá-las lentamente.
Eu relutei muito com isso porque a minha sensação é a de estar deixando um pedaço enorme de mim para trás. De abandonar algo que eu lutei tanto para fazer existir. E tentei pensar em um pequeno compromisso para fazer comigo mesmo para honrar essa memória, para fechar essa história com chave de ouro, e decidi que vou manter minha ideia dos próximos meses e terminar a Madre e a Freira ainda esse ano, enviando as partes para apoiadores do catarse. Não vou prometer que teremos textos todos os meses, mas será ainda esse ano, e 2026 será o fechamento do Só uma rapidinha como ele foi até hoje. Espero que também seja o renascimento de um novo Kodinha e uma nova relação com a escrita.
Enviei esse texto primeiro para apoiadores do catarse porque mudei bastante a minha dinâmica por lá, mas é importante dizer aqui também.
Me sinto estranho falando tudo isso. É como colocar para fora demônios que andam me assombrando há um tempo, finalmente tirando um peso do peito. Eu tenho uma relação muito difícil com meus sentimentos. Preciso ficar me revirando e me revirando e me revirando para encontrar origens, significados, para entender problemas e o que está, de fato, por baixo de tantas camadas e camadas de eu consigo, eu dou conta, está tudo bem e não tem nada, nada de errado. Geralmente tem algo de errado. Mas demora para encontrar o que é. Demora mais ainda para assimilar e aceitar. Mais um pouco para conseguir agir. Infelizmente sou excelente em ficar em ambientes desconfortáveis e não é a primeira vez que eu quase me queimo inteiro por isso, suspeito que também não será a última.
Mas como eu iniciei esse e-mail falando, eu quero carregar as boas memórias. Quero lembrar dos 1400 inscritos na newsletter, das parcerias, dos eventos, dos textos e mais textos, dos livros que surgiram da newsletter. Quero lembrar dos fãs do Padre e da Madre, quero lembrar dos apaixonados pelos vampiros, pelos monstros, quero lembrar das muitas pessoas que me disseram que encontraram nos meus textos, pela primeira vez, uma boa representatividade trans na escrita erótica. Quero sair de coração cheio, como essa newsletter muitas vezes me deixou. Não é fácil dizer adeus (por deus, é difícil pra caralho), mas é necessário. Para novos caminhos, novas histórias, novos projetos. Pra tentar novas possibilidades eu preciso de tempo. Pra ter tempo, estar um tico menos paranoico e ansioso com entregas é importante também.
Eu agradeço imensamente o apoio de cada um. Pra quem está aqui desde o começo, mas também quem chegou a pouco tempo. Só tenho a agradecer e agradecer e agradecer.
Eu não vou a lugar algum e, como disse meu querido amigo Fai, eu sempre serei um escritor (tom de ameaça). Ainda vou fazer novelas e romances, ainda vou escrever novas histórias e, espero, deixar que elas alcancem o público delas, cada uma do seu jeito.
Estou para começar a reescrita/escrita do romance do CEO trans de um sex shop e a secretária dele. Escrevi metade dessa história em 2023 e abandonei ela para me jogar de cabeça no mundinho quadrisal, mas agora estou voltando. Me sinto um pouco mais preparado para o que essa história precisa de mim. Me sinto um pouco melhor. No meu catarse agora só terei uma categoria de apoio, de 5 reais. Nela vou enviar mensalmente uma newsletter de atualizações, informações sobre o que ando fazendo, lendo, escrevendo, meus processos, inspirações e muitas coisinhas mais. Também é o melhor jeito de ler a Madre e a Freira que irei terminar de escrever esse ano, além de receber futuros e-books de lançamentos independentes em primeira mão. Se você gostava do meu trabalho por aqui e gostaria de continuar acompanhando o que eu faço, considere apoiar aqui!
De novo, muito, muito obrigado. Se eu tenho forças para continuar e tentar coisas novas é porque tive apoio na maluquice que foi essa newsletter. Uma insanidade de quatro anos que sustentei (quase) sem pausas. Obrigado, obrigado, obrigado.
Um beijinho (melancólico) e um abraço,
Koda
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